
Confesso que me senti incomodado quando, hoje de manhã, pude finalmente dedicar-me à leitura da crónica de Inês Pedrosa na Revista Única (Expresso de 10/04/2010), cujo título era «Só há pedófilos entre os padres?». Muito embora a figura da autora mereça o meu respeito e admiração, não deixei de me sentir revoltado ao constatar que, na sua óptica, a Igreja não teria "de pedir desculpa por crimes que nada têm que ver com a instituição enquanto tal" referindo-se, claro, à pedofilia de alguns dos seus clérigos. Defendeu na crónica do sábado passado que "se é verdade que a Igreja Católica tem um modo hierárquico e ostentatório de ser e de viver (...), não é menos verdade que é ela quem hoje está, muitas vezes só, junto dos desvalidos". Na perspectiva da autora, se "assumisse a culpa pelos crimes de pedofilia de um conjunto dos seus elementos, a Igreja estaria a sujar a imagem desses seus outros milhares de padres que se entregam a tornar felizes os que nada têm". Hoje ainda, um par de horas depois, já bem longe de casa, sei pela leitura online dos destaques da imprensa que há um novo escândalo na Igreja, agora devido à afirmação do número dois do Vaticano que de visita ao Chile disse claramente que "há ligação entre homossexualidade e pedofilia" (o detalhe está disponível por ligação ao Jornal de Notícias, no título desta entrada).
É impressionante quanto disparate se lê e se ouve. E a forma como se desculpa o indesculpável e se mistura o que não deveria nunca ser misturado. Acho inaceitável que alguém na "santa" Igreja desculpe seja quem for por ter praticado um, dois, dez, uma centena ou mais de um milhar de crimes, aqui e ali, e por todo o lado, quando as vítimas são as crianças inocentes e indefesas. Um crime é um crime e nada, nem ninguém, pode desculpar ou sonegar aos justos o seu direito de justiça. Parece-me muito claro que a Igreja promove continuamente a homofobia contra aqueles que querem simplesmente viver o seu amor e tolera a pedofilia (homossexual e heterossexual) quando os actos têm lugar longe dos olhos do mundo. As palavras enganadoras do cardeal Tarcisio Bertone – "demonstraram muitos sociólogos, muitos psiquiatras, que não há uma relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram, e disseram-mo recentemente, que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia" – não são a verdade, mas o problema. São a expressão de uma doutrina que mantém viva a chama do ódio e que tenta fazer de nós as verdadeiras vítimas deste novo obscurantismo!