Aproxima-se a data anunciada para a leitura das sentenças sobre o caso Casa Pia. Tantos anos, voltas e reviravoltas depois vamos ficar inevitavelmente com a sensação de que a Justiça – se a tiver havido – não terá sido suficiente. Um caso destes, tão longo e complexo, exige soluções que não se esgotem no simbolismo de penas pouco pesadas ou – o que seria ainda pior – na possibilidade de uns quantos, que poderão ter culpas não suficientemente provadas, virem pedir ao Estado compensações materiais dos seus prejuízos. Por essa lógica, então, que o Estado compense também as crianças lesadas no seio das instituições, que outra função não tinham senão a de as proteger e de as fazer crescer num ambiente saudável, normal e aberto – longe porém das garras de gente imunda e sem escrúpulos, que usa e abusa da ingenuidade natural dos mais novos. O poeta britânico William Henry Davies (1871-1940), retratou-a lindamente em «The Happy Child», assim:I saw this day sweet flowers grow thick –
But not one like the child did pick.
I heard the packhounds in green park –
But no dog like the child heard bark.
I heard this day bird after bird –
But not one like the child has heard.
A hundred butterflies saw I –
But not one like the child saw fly.
I saw the horses roll in grass –
But no horse like the child saw pass.
My world this day has lovely been –
But not like what the child has seen.
Os meninos felizes parecem-se com anjos; são atentos e sensíveis à mais pequena coisa e ao mais ignorado detalhe; vêem e ouvem e sentem e esvoaçam fantasiosamente pelo mundo, livres como querubins, sem destinos, nem fadigas; tudo se lhes afigura belo, tudo os encanta, nesse seu mundo puro e intocável – mas onde param hoje essas crianças felizes e que memória mágica lhes resta desses tempos de felicidade?...








