2010/08/31

memórias da felicidade

Aproxima-se a data anunciada para a leitura das sentenças sobre o caso Casa Pia. Tantos anos, voltas e reviravoltas depois vamos ficar inevitavelmente com a sensação de que a Justiça – se a tiver havido – não terá sido suficiente. Um caso destes, tão longo e complexo, exige soluções que não se esgotem no simbolismo de penas pouco pesadas ou – o que seria ainda pior – na possibilidade de uns quantos, que poderão ter culpas não suficientemente provadas, virem pedir ao Estado compensações materiais dos seus prejuízos. Por essa lógica, então, que o Estado compense também as crianças lesadas no seio das instituições, que outra função não tinham senão a de as proteger e de as fazer crescer num ambiente saudável, normal e aberto – longe porém das garras de gente imunda e sem escrúpulos, que usa e abusa da ingenuidade natural dos mais novos. O poeta britânico William Henry Davies (1871-1940), retratou-a lindamente em «The Happy Child», assim:

I saw this day sweet flowers grow thick –
But not one like the child did pick.

I heard the packhounds in green park –
But no dog like the child heard bark.

I heard this day bird after bird –
But not one like the child has heard.

A hundred butterflies saw I –
But not one like the child saw fly.

I saw the horses roll in grass –
But no horse like the child saw pass.

My world this day has lovely been –
But not like what the child has seen.

Os meninos felizes parecem-se com anjos; são atentos e sensíveis à mais pequena coisa e ao mais ignorado detalhe; vêem e ouvem e sentem e esvoaçam fantasiosamente pelo mundo, livres como querubins, sem destinos, nem fadigas; tudo se lhes afigura belo, tudo os encanta, nesse seu mundo puro e intocável – mas onde param hoje essas crianças felizes e que memória mágica lhes resta desses tempos de felicidade?...

2010/08/30

into the sun

Ontem jantámos com 3 amigos especialíssimos no 'wok to walk' ou seja, em português, WOquê TO WALquê (entenda-se que este trocadilho é uma simples brincadeira). A experiência foi interessante e a companhia ainda mais. Faltou-nos a música. Hoje, já de volta aos discos, a banda-sonora possível e talvez ideal foi identificada. É só uma sugestão (como o restaurante, aliás), mas vale a pena considerá-la como algo que não fica mal numa discoteca actual. Refiro-me a «Into The Sun», o disco com que se estreou em 1998 o músico que assina com o seu legítimo nome de nascença: Sean Lennon (Sean Taro Ono Lennon, para ser completo). Tem as cores do restaurante (o laranja), tem a fusão das culturas oriental e ocidental, tem o sabor cosmopolita, tem o fascínio da criatividade e (ainda) da novidade, com um pouquinho de confortável tradição à mistura. É bom para se ouvir enquanto se come (sem pressas), ou de qualquer outra maneira (que nos saiba bem). Já agora, do Sean, será necessário dizer-vos de quem ele é sOn?... :-)

2010/08/27

viajar às cores

Não são fáceis de encontrar nas nossas livrarias (e ainda menos em condições impecáveis) os guias de viagem da Wallpaper*, que neste momento já totalizam 80 títulos-cidades diferentes. À falta de melhor oferta podem-se, no entanto, encomendar online. E deve-se fazê-lo porque são bonitos, não são caros e são um grande incentivo para se conhecer o que de melhor poderemos encontrar em muitos destinos fantásticos. A nossa colecção ainda só tem quatro volumes – «Marseille», «Barcelona», «Reykjavík» e «Amsterdam» – mas há outros títulos que são fortes candidatos a juntar-se a estes, seja pelo fascínio que temos por essas outras cidades, seja porque já as visitámos ou porque ainda as queremos descobrir – «Athens», «Berlin», «Bilbao», «Copenhagen», «Dublin», «Edinburgh», «Florence», «Lisbon», «London», «Madrid», «Munich», «Paris», «Seville», «Stockholm», «Venice», «Vienna» e mais, que não é assim tão simples fazer uma escolha definitiva. O «City Guide» da Wallpaper* (que é uma edição da britânica Phaidon Press) também está disponível em pacotes temáticos («Art Fairs», «Beach», «Business» e «Fashion») e, mais recentemente, alguns títulos são disponibilizados em aplicações para usar no iPhone e no iPod Touch. Nós, no entanto, ainda preferimos a versão mais colorida: a dos livrinhos que se juntam e que fazem belíssimos "arco-íris"!

2010/08/25

retrato de família

O blogue 'Sexuality & Love in the Arts' tem um artigo interessante (e interessantemente ilustrado) sobre a obra do pintor pop David Hockney, nascido em Inglaterra em 1937 e (felizmente) ainda vivo e incessantemente criativo – Do You Know David Hockney? Não vale a pena fazer uma exposição detalhada da importância e do meu/nosso fascínio extremo pelo artista e pela sua obra, mais ainda desde que, há 3 anos, assistimos em Londres, na Royal Academy of Arts, à primeira apresentação pública de uma das suas obras mais surpreendentes, a gigantesca composição «Bigger Trees Near Warter» (que seria doada em 2009, à Tate Britain). Muitos dizem que só se elogiam os artistas depois da sua morte, mas essa é uma falsa verdade. E aqui se vê com mais um exemplo, este antigo, de 1968, de uma pintura que nos fascina e que é o retrato do escritor Christopher Isherwood (cujas obras inspiraram os criadores do musical «Cabaret») com o seu companheiro Don Bachardy (também ele um pintor famoso). Afinal, conheces David Hockney?...

2010/08/18

pela abolição das touradas

A abolição das touradas voltou à ordem do dia com a recente alteração da lei na vizinha Catalunha, a qual já se tornou num exemplo admirável à escala mundial. Em Portugal, as touradas continuam a ser um divertimento consentido às elites, ainda que choquem com os sentimentos que existem na besta e na grande maioria do povo, que se mostra contra. Por isso se juntaram uns quantos activistas, mais um número ainda não medido de signatários, numa petição dirigida ao Presidente da República Portuguesa, ao Primeiro-Ministro e aos deputados, com vista à "abolição das touradas e de todos os espectáculos com touros". Depois de lida, ficámos com algumas dúvidas em relação à lógica de um ou outro ponto, em especial à da evocação da perspectiva católica (ver o ponto d). No entanto, outros valores falam mais alto e talvez esse seja apenas um detalhe menor – cada um o avaliará de acordo com a sua própria consciência. Como dizia recentemente o amigo Pinguim, numa entrada do blogue whynotnow, "será que algum dia, haverá coragem para acabar com esta selvajaria em Portugal?" Dele veio também a notícia da petição (ligação acima) e da sua concordância com os princípios que nela se defendem. Desafiou-nos a subscrevê-la e nós levamos o desafio mais longe, dando-te uma imagem do que será uma tourada na perspectiva do touro e passando-te a possibilidade de fazer algo mais para acabar com isto! É que já basta com esta arte bárbara, não basta?!...

2010/08/16

fugir para os açores

Nunca me deixei levar pelas ilhas portuguesas: as da Madeira cheiram demais a Jardim e o arquipélago dos Açores sempre me pareceu demasiado longe, demasiado caro (para lá chegar), demasiado paisagístico... Das primeiras mantenho a impressão de sempre, até que alguma coisa as faça menos vítimas do caciquismo exacerbado do Alberto João, ou de algo além que com isso se confunde; do segundo, a minha impressão começa a mudar... Começou talvez antes ainda da nossa visita recente à Islândia, mas foi lá que comecei a fazer paralelismos entre si, olhando à sua situação meridional, ao fuso horário, ao verde húmido e intenso das suas paisagens... Por coincidência, quando voltámos, uma amiga de lá escrevia-nos a dizer-nos que os Açores não são a Islândia, mas que também têm os seus vulcões, que é como quem dizia que a beleza que nos levou a um lado também nos poderia ter chamado ao outro. E é verdade que, à sua maneira, os Açores são a nossa Islândia. Só que continuam tão longe e tão caros (para lá chegar) e, ainda por cima, tão perdidos na bruma quase incessante, que nós nunca nos lembramos de os pôr ainda como um destino de primeira escolha. Só que, entretanto, mais alguém reparou nisso e decidiu fazer o que já deveria ter sido feito há muito mais tempo: permitir-nos (a todos nós) voar para lá, passar uns quantos dias (pelo menos 5) e voltar, tudo por um preço... low cost. Quem o conta em detalhe é o blogue Fugas, do jornal Público, que pode ser lido pela ligação mais acima.

2010/08/06

orbit, em contagem decrescente

Quem ouviu (após 1998) o álbum «Ray Of Light» da Madonna, ou (após 1999) o disco «13» dos Blur, já se cruzou seguramente com o talento excepcional de William Orbit, músico e produtor inglês nascido em 1956. Mas foi em finalmente em 2000 que o seu próprio disco «Pieces In A Modern Style» (o sexto na conta criativa do autor) me fez render completamente aos seus inegáveis talentos. Esse álbum trazia ao mundo variações pop de algumas peças que, de tão clássicas, já quase não nos faziam vibrar: o «Adagio For Strings» de Barber, a «Ogive Number 1» de Satie, a «Cavalleria Rusticana» de Mascagni, para além de outras célebres ou menos conhecidas composições com as assinaturas de Cage, Ravel, Vivaldi, Beethoven, Handel e Góreki (que esteve longamente relutante em autorizar Orbit na utilização da sua «Piece In The Old Style»).
Uma década depois, voltamos à contagem decrescente para o lançamento de um novo disco de William Orbit, acto que está anunciado para 16 de Agosto com «Pieces In A Modern Style 2». Este segundo tomo será lançado pela editora de música clássica Decca Records, aglutinando variações "electrónicas" sobre peças de Saint-Saëns, Elgar, Porpora, Grieg, Bach, Vaughan Williams, Bellini, Fauré, Puccini e Tchaikovsky, fechando com uma composição de Orbit himself. Terá uma edição de luxo, com um CD extra completamente dedicado a remisturas das peças incluídas no disco principal. Cresce a nossa expectativa, também porque o desenho da capa que já se mostra acima nos faz acreditar que vem aí mais um grande trabalho.

2010/08/05

com'out de novo nas bancas

A revista Com'out voltou às bancas, após a paragem de alguns meses. Regressou com o nº 9, relativo ao trimestre de Julho a Setembro de 2010 e custa 3,00€ (no continente). Para assinalar este regresso, parece que vai haver uma festa de relançamento (é amanhã, não é, na Maria Lisboa?).
Neste número fala-se de adopção e de inseminação artificial, da mudança de sexo, da essência dos afectos heteros e homos, do orgulho numa perspectiva política, das possibilidades do poliamor, do amor trans, das relações duradouras a dois, do sucesso de uma empresária homossexual assumida, de questões de saúde e afins, faz um retrato do escritor António Botto, propostas de fugas turísticas, de moda, discográficas, livreiras, de teatro, de artes plásticas e de cinema, reportagens das marchas de orgulho em Lisboa e no Porto, apresentação de espaços LGBT e... tanto mais!
A equipa de jornalistas, colaboradores e criativos insiste no relançamento da Com'out porque acredita na sua potencial capacidade para melhorar a vida de muitas pessoas. Que assim seja, com a necessária energia e por muito tempo!

2010/07/30

moranguitos

Há quem prefira tudo em versão light, há que prefira tudo completamente ao natural. Goste-se ou não de morangos, goste-se ou não de Morangos Com Açúcar, é inevitável ouvir falar deles, ano após ano, série após série. E, quando se gosta, também fica bem a quem gosta dizer como os prefere, e exigir que lhe sirvam os da sua preferência: se não os têm, então que mandem vir os moranguitos como deve ser; devolvê-los ao produtor, é que não!...
Sigam a ligação no título acima e leiam também o artigo de onde esta imagem foi "pedida por empréstimo", aqui. Depois é ver, querer ver, ou ignorar.