2010/11/01

recado (aos que já partiram)

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

[Poema «Recado», de Al Berto, na página 181 da antologia «Vigílias», organizada por José Agostinho Baptista para a editora Assírio & Alvim, Lisboa, 2004. A imagem foi encontrada na net, não estando identificada.]

2010/10/22

be stupid

Como a outra metade do elefante ficou fora da fotografia, não podem dizer que isto é pornografia. Quando muito, digam que é muito estúpido! Pois, que "smart may have the answers, but stupid has all the interesting questions." ;)

2010/10/19

telepatia

Este é um desenho de Ana Madureira, que está na montra do Passos Manuel. TELL vem do inglês "dizer", do Guilherme Tell ou do que se quiser (dizer)… TELL é um desafio lançado a vários artistas – fazer uma criação para o escuro – e o público é convidado a (não) ver. (Não) ver cada artista custa 1 euro. 1 artista = 1 euro, portanto (ou por tão pouco!). Terão os artistas alguma coisa para dizer no escuro? E o público, terá ele medo de permanecer no escuro? Amanhã se saberá, após as 22h, no Porto do Passos Manuel, com as artes de Joana Craveiro, Cláudia Galhós, Chullage, Elisa Santos, João Martins, Sérgio Brás d'Almeida e de... Lara Li! Ainda que coincida na data do 5º aniversário deste blogue, ninguém nos soube dizer se terá sido, é ou vai ser... «Telepatia»:

Telepatia / Silêncio, Calma / Feitiçaria / Da tua alma
Passo a passo / Sem ter medo / Abrimos, soltámos / O nosso segredo
E a sorrir / Devorámos o mundo / Num abraço / Tão profundo
Telepatia...

2010/10/15

pisionarios

"Pisionarios" ("piso" = andar) são "personas que se adelantan a su tiempo y deciden comprar su vivienda ahora con Mediterranean". Mediterranean é o departamento imobiliário da Caja Mediterrâneo, que não tem qualquer complexo em tratar todos os casais como devem ser tratados: num anúncio, que encontrámos na imprensa gay espanhola, diz-se "Por fin he conocido al hombre que me hace feliz y tengo la seguridad de que ahora vamos a encontrar la casa de nuestra vida." Afinal vivermos todos num mundo mais feliz é tão simples, não é?! É só querermos!!!

2010/10/12

cristiano de beber

A Islândia tem uma devoção invulgar pela figura do craque português Cristiano Ronaldo, como se prova pela escolha da sua imagem para uma bebida energética islandesa, a Soccerade. Pouco nos importa a qualidade do refresco, os seus efeitos primários e secundários, ou até o seu preço. O importante é o quanto vale a figura do capitão da selecção portuguesa de futebol: com o resultado do desafio desta noite em Reiquejavique, que terminou com a vitória de Portugal sobre a Islândia por 1-3, o golo inaugural de Cristiano não só ajudou os portugueses na conquista da vitória, como também reforçou a sua imagem de menino travesso e de vencedor. Depois disto, não nos ficam dúvidas de que Cristiano Ronaldo continuará a ser apetecido para decorar as paredes e as prateleiras dos supermercados em Reiquejavique e nos de outras localidades da terra do gelo, assim como a potenciar a energia da juventude islandesa, enquanto lhe sacia a sede.

(Ambas as fotos são originais e foram por nós obtidas num supermercado de Reiquejavique, durante as nossas férias de Julho.)

2010/10/08

alessi, pw01

Lorenzo Piccione, de Pianogrillo, é um produtor siciliano de azeite. Como muitos antes dele, Piccione tem observado o crescimento do interesse pelo azeite de qualidade, mas foi ele quem se deu conta que não havia um utensílio que permitisse ao especialista a degustação desse néctar. Foi por isso que ele concebeu um objecto sem precedentes, que a marca italiana Alessi acarinhou e produziu: o provador pessoal de azeite. Foi produzido pela primeira vez em 2007, em aço inoxidável 18/10, polido com acabamento espelhado. Mede 17,5x7,5 cm, com a altura máxima de 6,3 cm. À ideia original de Lorenzo Piccione di Pianogrillo juntou-se o labor de Köbi Wiesendanger, para criar um prato semelhante a uma folha de oliveira, sobre o qual assenta a peça principal, idêntica a uma azeitona atravessada por um palito, com capacidade para 5,3 cl do precioso ouro da terra. Para além da função que motivou a sua criação, este provador pessoal pode ser partilhado para aplicar um fio de azeite sobre fatias de pão saloio (é só uma possibilidade), para desenhar laços de néctar num prato mais elaborado, ou como complemento de mesa para acrescentar o generoso lubrificante a um prato de bacalhau (ou de um outro petisco mais excepcional). E também fica bem vazio, só como objecto decorativo. Nome de código da Alessi: PW01. Veredicto final: aprovado com distinção!

2010/10/06

o nosso casamento

No dia 23 de Junho aconteceu que na entrada love nest vos anunciámos de forma dissimulada que a data do nosso casamento tinha sido fixada no dia 4 de Outubro (por coincidência, o dia do aniversário do grande Buster Keaton). Mais de três meses depois, às 15 horas de 4 de Outubro, a entrada está na hora... era publicada de forma programada para coincidir com o momento em que nós e as nossas testemunhas estaríamos com a Conservadora a celebrar – finalmente – o nosso casamento. Entre todos estes sinais subtis do que estava a acontecer, o passo seguinte foi mostrar-vos um quarto da belíssima Pousada de Santa Maria do Bouro, em amares, onde passámos a noite oficial da nossa Lua de Mel (ensaiada em Julho na Islândia). Esperando que se sintam inspirados, aqui partilhamos convosco uma memória fotográfica de alguns desses momentos:

Na Conservatória, a troca das alianças de casamento

Ao final do dia, a chegada à Pousada de Santa Maria do Bouro

A arte e a história suprimiam o silêncio do tempo

Já à mesa do restaurante, onde tudo é belo e requintado

O ambiente de um convento, nos mais pequenos detalhes

Uma outra perspectiva do restaurante

O serviço atencioso, pronto e extremamente simpático

Após o jantar, fizemos um pequeno passeio nocturno ao ar livre

Do laranjal seguimos à descoberta de outros encantos do edifício

Depois fomos experimentar em pleno as comodidades da vida de casados

Entre a bruma da manhã surgiu esta vista da janela do nosso quarto

E a vista era naturalmente bela, em qualquer das direcções

Mais não se poderia esperar, quando se esperou quase tudo...

As "namoradeiras" eram afinal postos solitários de contemplação

Ao início da manhã já nos preparavamos para a partida, que não tardava

Um último passeio pela pousada, logo após o pequeno-almoço

Mais um recanto aconchegante, ao ar livre mas protegido do exterior

O mesmo espaço sereno, numa outra perspectiva

A chaminé da grande cozinha e o espelho de água adjacente

E a piscina que o outono não nos deixou usufruir, desta vez!...

(PS – Mais logo, ou depois, vamos voltar para responder aos comentários a que ainda não respondemos. Entretanto já corrigimos a colocação das fotografias, sendo agora possível vê-las com a dimensão de 800x600 pixeis.)

2010/10/04

está na hora...

epígrafe

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da tôrre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas-ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos sòmente a Beleza, que a vida
é um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...

[Poema «Epígrafe», de Eugénio de Castro, na página 23 da «Antologia de Poemas Portugueses Modernos», por Fernando Pessoa e António Botto, da Editorial Nobel, Coimbra, 1944. Imagem a partir da escultura «L'Âge d'Airain» (A Idade do Bronze), de Auguste Rodin, 1875, exposta no Musée d'Orsay, Paris.]