2011/03/23

ai se ele cai

Ai se ele cai
é cá uma pastilha que ninguém se levanta mais do chão.
Solta uma chuva radioactiva
que até molha o coração.

Ai se ele cai... ai se ele cai abre um buracão,
levanta uma poeira miudinha que tira a tosse da garganta
e rebenta com o pulmão.

E é que se ele cai
não haverá segunda vez nem p'ra mim, nem p'ra ti,
nem pró Papa, nem pró cão.

É qu'aonde ele cai
abre um buracão.
E s'ele cai nunca mais há ninguém p'ra meter num caixão,
é que s'ele cai nunca mais há ninguém p'ra meter num caixão.

Em Tokyo, em Monpracem, no Connecticut,
em Vila Nova (Vila Nova) d'Ourém,
no Minnesota, Vladivostok,
em Tripoli ou aqui,
ou nas ilhas ou nas ilhas Faröe,
em Faro ou nas ilhas Faröe.

Em Tokyo, em Monpracem, no Connecticut,
em Vila Nova de Ourém,
e na Sorbonne, no Minnesota,
Valladolid ou aqui,
ou nas ilhas ou nas ilhas Faröe.

... E tentar a reconstrução
é ter que aturar outra vez o velho Abraão,
os hippies e a fêmea do cro-magnon,
o neo-realismo e o teimoso Tamerlão,
os tratados de balística e o próprio Gengis Cão.

Letra de «Pershingópolis», do álbum «Defeitos Especiais», dos GNR, tema que pode ser ouvido pela ligação no título da entrada. A letra, de 1984, talvez tenha hoje um contexto (político) que lhe possibilita uma leitura diferente...

2011/03/22

prefacio para un viaje en andalucía (tres)

A foto (encontrada aqui) é da praia El Palmar, a que fica mais perto de Vejer de la Frontera (o nosso próximo e ainda distante destino de férias) e onde deveremos passar algum tempo. Ao lado (temporariamente), um vídeo mostra como as populações a procuram proteger dos grandes interesses económicos, das agressões cegamente capitalistas. Porque há valores que são mais importantes do que outros...

2011/03/21

o meu poema

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida.

No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera de futuro.

Da parceria de Carlos do Carmo (voz), José Luís Tinoco (letra e música) e José Calvário (orquestração) nasceu «No Teu Poema», tal como se apresentou em 1976 ao Festival RTP da Canção. Nesse ano, os apresentadores foram Ana Zanatti, Eládio Clímaco e António Vitorino de Almeida e «O Teu Poema» ficou apenas com o honroso 3º lugar. Mais honras se façam. E hoje, dia em que tantos falam poesia, que este seja o meu poema!

2011/03/20

nina

Nina Hagen, ontem, esteve na Casa da Música. Casa cheia, a transbordar, foi a moldura. Nina, no palco, com a sua banda, regressou a alguns dos seus clássicos (incluindo versões de «My Way» e «TV-Glotzer», também conhecido como «White Punks On Dope») e novas aventuras musicais com referências a Elvis Presley, Joan Baez, Nick Drake e, até, aos Depeche Mode. Foi calorosa e simpática. Muito! Nesta sua segunda passagem pelos palcos do Porto (a primeira foi na década de 80) nós voltamos a estar juntos na sala onde decorreu o seu concerto. Se da primeira vez não nos conhecíamos ainda e provavelmente nem sequer nos cruzámos entre as centenas de fãs presentes, desta vez estivemos lado a lado. Felizes da vida!

2011/03/17

prefacio para un viaje en andalucía (dos)

Os planos estavam já a tornar-se demasiado extensos (e caros) e tivemos que considerar a necessidade de abreviar a duração das nossas férias na Andaluzia, no próximo verão. Vamos esquecer por agora a acalorada monumentalidade de Córdoba, Granada ou Sevilha e preencher os nossos dias na Andaluzia com idas à praia: entre as douradas pelo sol de Marbelha (ou de Estepona, ou de Cabopino, ou de Torremolinos, ou de Málaga, ou mesmo de Nerja) e as refrescadas pela brisa "africana" de Vejer de La Frontera (ou de Conil, ou de El Palmar, ou de Zahora, ou de Los Caños de Meca, ou de Barbate, ou de Zahara de los Atunes, ou mesmo de Tarifa), talvez nos fiquemos pela opção mais próxima de nós, que é também a mais pura e a mais naturalista, sem chegar a ser selvagem.
Granada e Málaga estarão já de fora nos nossos planos andaluzes? Talvez! Apesar de Lorca e Picasso continuarem presentes nos costumes e na paisagem de Vejer de la Frontera e da sua região.

2011/03/13

prefacio para un viaje en andalucía (uno)

Granada, Huerta de San Vicente Nº 6

¡Ay voz secreta del amor oscuro!
¡ay balido sin lanas! ¡ay herida!
¡ay aguja de hiel, camelia hundida!
¡ay corriente sin mar, ciudad sin muro!

¡Ay noche inmensa de perfil seguro,
montaña celestial de angustia erguida!
¡Ay perro en corazón, voz perseguida,
silencio sin confín, lirio maduro!

Huye de mí, caliente voz de hielo,
no me quieras perder en la maleza
donde sin fruto gimen carne y cielo.

¡Deja el duro marfil de mi cabeza,
apiádate de mí,
¡rompe mi duelo!,
¡que soy amor, que soy naturaleza!

[Imagem e poema como primeiro momento de um prefácio longo para uma viagem por terras andaluzas. Começando (ou não) em Granada, o poema é «¡Ay Voz Secreta Del Amor Oscuro!», de Federico García Lorca, que vem na página 68 do livro «Amor Obscuro», em edição da Hiena Editora, Lisboa, 1992, com tradução paralela de António Moura. A bela imagem foi encontrada na net, e está assinada por Landahlauts.]

2011/02/25

o prazer que se segue

Peter Hook (Joy Division/New Order) em «Unknown Pleasures»

2011/02/18

livrai-nos do mel

A 24 (que é a próxima quinta-feira) volta a haver leitura, à noite, no Teatro do Campo Alegre. Será mais uma sessão das «Quintas de Leitura» portuenses, desta vez em sessão única com escolhas poéticas do poeta, também cantor, Rui Reininho.
O mote da noite será «...e livrai-nos do mel», talvez porque o néctar que nos "envenenará" será colhido nos universos poéticos de Alexandre O’Neill, António Botto, Boris Vian, Carles Riba i Bracons, Diane di Prima, E.M. de Melo e Castro, Jacques Prévert, José Carlos Ary dos Santos e Pier Paolo Pasolini, não se tendo referido todos os autores.
Debaixo dos projectores, ao lado de Reininho, estarão a declamar Adriana Faria, Teresa Coutinho e Filipa Leal, mas ainda intervirá Filomena Cautela que irá conversar com o convidado e ler alguns poemas, havendo imagens de Luís Tobias. Depois virá a música, em parcerias com Armando Teixeira, a Companhia das Índias, Carl Minnemann, Rui Azul e Rui Cenoura. O rei Reininho é excêntrico e nessa noite também irá chamar junto de si o Moto Clube do Porto e os Alunos de Apolo.
A imagem que se mostra acima é de uma colagem de Ricardo Pádua sobre fotografia de Pedro Lobo. Ao vivo, como será?

2011/02/14

porque sim

Fui à janela e hoje havia flores na nossa rua. Ontem já lá estavam e antes também, mas hoje parecem-me especiais. E são-no! Porque sim e sabes bem...

2011/02/11

um salto ao futuro

Que querem? Entre um computador que tardou em ser reparado (aquele com que costumava passar mais horas a trabalhar e onde ia deixando um ou outro pensamento), um carro novo que tardou a chegar (mas que finalmente chegou e nos deixou bastante radiantes), os amigos que tardamos a reencontrar (porque estávamos sempre a adiar os encontros e, agora, é um ver se te avias quando estamos os dois disponíveis para combinar encontros) e, até, porque a planificação das férias já começou e isso vai exigindo aprofundamento de opções (com carro novo, neste ano é mesmo para viajar pela estrada fora, quase como o Jack Kerouac, não até Tânger mas também não andaremos muito longe de lá). E o que mais calha...
Calhava bem agora, por exemplo, meter pés à estrada e dar um salto ao futuro para ver, em Guimarães, o bairro social da Senhora da Conceição, que a estilista espanhola e marquesa Ágatha Ruiz de la Prada y Sentmenat vai em breve "vestir" à sua custa (ver imagem e ligação no título acima, ou ao lado no filme temporário). Eu já gostava de algumas das coisas desenhadas pela distinta senhora, tanto que até as comprei algumas vezes nas suas lojas para presentear a minha pequena sobrinha, que agora é teenager e que também as apreciava, para seu e meu contentamento.
Por isso, e pela Capital Europeia da Cultura que Guimarães será em 2012, o castelo do velho Conquistador que nos pôs a todos a falar português será de novo um destino nos nossos planos. Se não antes, pelo menos no próximo ano.