2011/03/30

morreu ângelo de sousa

Morreu Ângelo de Sousa, um dos maiores artistas portugueses do último século. Foi pintor, escultor, fotógrafo, cineasta... Nasceu em Lourenço Marques (Moçambique, 1938) e morreu no Porto (depois de doença prolongada, na noite de ontem). Vivia nesta cidade desde 1955, onde se licenciou (nas Belas-Artes) com a nota máxima de 20 valores. Era um artista muito criativo, com um estilo muito próprio, muito marcado pelo uso da cor, da textura, das variações subtis, da geometria. Foi um dos artistas plásticos mais próximos do arquitecto Eduardo Souto de Moura, a quem nos referimos no texto anterior. Era uma pessoa fascinante com quem, aliás, várias vezes nos cruzámos. Sobretudo para falar de música, ou de outras artes...

2011/03/28

a nossa vitória

Parabéns ao arquitecto, que é do Porto, de Portugal e do mundo e que se acabou de saber ter vencido The Pritzker Architecture Prize 2011, que muito dizem ser equivalente a um Nobel da Arquitectura. O sítio oficial do prémio ainda não anunciou os laureados para este ano e a informação disponível foi avançada por fonte especializada, entretanto já confirmada pelo atelier do arquitecto português. Chama-se Eduardo Souto de Moura e a vitória dele é também a nossa vitória!

2011/03/24

e agora, as coisas boas...

Não é a primeira vez que a IKEA faz publicidade orientada para o público gay. Desta vez foi em Itália, com o anúncio que se mostra. A IKEA Catania reitera: "Nós estamos abertos a todas as famílias. Connosco todos vão sentir-se em casa. O que nós queremos fazer é tornar a vida mais fácil para todos. O que nós queremos fazer é facilitar a vida de todos, de cada família, cada casal, sejam quem forem."
A campanha talvez tivesse a intenção de apelar directamente a este tipo de casais e de famílias (como habitualmente o faz com as famílias tradicionais), mas também despertou reacções homófobas na imprensa conservadora. Já os movimentos associativos de luta pela igualdade de direitos LGBT louvaram a campanha, uma vez que promove a igualdade, a visibilidade e a normalidade.
Por cá continuamos a apelar à IKEA que se manifeste!

2011/03/23

ai se ele cai

Ai se ele cai
é cá uma pastilha que ninguém se levanta mais do chão.
Solta uma chuva radioactiva
que até molha o coração.

Ai se ele cai... ai se ele cai abre um buracão,
levanta uma poeira miudinha que tira a tosse da garganta
e rebenta com o pulmão.

E é que se ele cai
não haverá segunda vez nem p'ra mim, nem p'ra ti,
nem pró Papa, nem pró cão.

É qu'aonde ele cai
abre um buracão.
E s'ele cai nunca mais há ninguém p'ra meter num caixão,
é que s'ele cai nunca mais há ninguém p'ra meter num caixão.

Em Tokyo, em Monpracem, no Connecticut,
em Vila Nova (Vila Nova) d'Ourém,
no Minnesota, Vladivostok,
em Tripoli ou aqui,
ou nas ilhas ou nas ilhas Faröe,
em Faro ou nas ilhas Faröe.

Em Tokyo, em Monpracem, no Connecticut,
em Vila Nova de Ourém,
e na Sorbonne, no Minnesota,
Valladolid ou aqui,
ou nas ilhas ou nas ilhas Faröe.

... E tentar a reconstrução
é ter que aturar outra vez o velho Abraão,
os hippies e a fêmea do cro-magnon,
o neo-realismo e o teimoso Tamerlão,
os tratados de balística e o próprio Gengis Cão.

Letra de «Pershingópolis», do álbum «Defeitos Especiais», dos GNR, tema que pode ser ouvido pela ligação no título da entrada. A letra, de 1984, talvez tenha hoje um contexto (político) que lhe possibilita uma leitura diferente...

2011/03/22

prefacio para un viaje en andalucía (tres)

A foto (encontrada aqui) é da praia El Palmar, a que fica mais perto de Vejer de la Frontera (o nosso próximo e ainda distante destino de férias) e onde deveremos passar algum tempo. Ao lado (temporariamente), um vídeo mostra como as populações a procuram proteger dos grandes interesses económicos, das agressões cegamente capitalistas. Porque há valores que são mais importantes do que outros...

2011/03/21

o meu poema

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida.

No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera de futuro.

Da parceria de Carlos do Carmo (voz), José Luís Tinoco (letra e música) e José Calvário (orquestração) nasceu «No Teu Poema», tal como se apresentou em 1976 ao Festival RTP da Canção. Nesse ano, os apresentadores foram Ana Zanatti, Eládio Clímaco e António Vitorino de Almeida e «O Teu Poema» ficou apenas com o honroso 3º lugar. Mais honras se façam. E hoje, dia em que tantos falam poesia, que este seja o meu poema!

2011/03/20

nina

Nina Hagen, ontem, esteve na Casa da Música. Casa cheia, a transbordar, foi a moldura. Nina, no palco, com a sua banda, regressou a alguns dos seus clássicos (incluindo versões de «My Way» e «TV-Glotzer», também conhecido como «White Punks On Dope») e novas aventuras musicais com referências a Elvis Presley, Joan Baez, Nick Drake e, até, aos Depeche Mode. Foi calorosa e simpática. Muito! Nesta sua segunda passagem pelos palcos do Porto (a primeira foi na década de 80) nós voltamos a estar juntos na sala onde decorreu o seu concerto. Se da primeira vez não nos conhecíamos ainda e provavelmente nem sequer nos cruzámos entre as centenas de fãs presentes, desta vez estivemos lado a lado. Felizes da vida!

2011/03/17

prefacio para un viaje en andalucía (dos)

Os planos estavam já a tornar-se demasiado extensos (e caros) e tivemos que considerar a necessidade de abreviar a duração das nossas férias na Andaluzia, no próximo verão. Vamos esquecer por agora a acalorada monumentalidade de Córdoba, Granada ou Sevilha e preencher os nossos dias na Andaluzia com idas à praia: entre as douradas pelo sol de Marbelha (ou de Estepona, ou de Cabopino, ou de Torremolinos, ou de Málaga, ou mesmo de Nerja) e as refrescadas pela brisa "africana" de Vejer de La Frontera (ou de Conil, ou de El Palmar, ou de Zahora, ou de Los Caños de Meca, ou de Barbate, ou de Zahara de los Atunes, ou mesmo de Tarifa), talvez nos fiquemos pela opção mais próxima de nós, que é também a mais pura e a mais naturalista, sem chegar a ser selvagem.
Granada e Málaga estarão já de fora nos nossos planos andaluzes? Talvez! Apesar de Lorca e Picasso continuarem presentes nos costumes e na paisagem de Vejer de la Frontera e da sua região.

2011/03/13

prefacio para un viaje en andalucía (uno)

Granada, Huerta de San Vicente Nº 6

¡Ay voz secreta del amor oscuro!
¡ay balido sin lanas! ¡ay herida!
¡ay aguja de hiel, camelia hundida!
¡ay corriente sin mar, ciudad sin muro!

¡Ay noche inmensa de perfil seguro,
montaña celestial de angustia erguida!
¡Ay perro en corazón, voz perseguida,
silencio sin confín, lirio maduro!

Huye de mí, caliente voz de hielo,
no me quieras perder en la maleza
donde sin fruto gimen carne y cielo.

¡Deja el duro marfil de mi cabeza,
apiádate de mí,
¡rompe mi duelo!,
¡que soy amor, que soy naturaleza!

[Imagem e poema como primeiro momento de um prefácio longo para uma viagem por terras andaluzas. Começando (ou não) em Granada, o poema é «¡Ay Voz Secreta Del Amor Oscuro!», de Federico García Lorca, que vem na página 68 do livro «Amor Obscuro», em edição da Hiena Editora, Lisboa, 1992, com tradução paralela de António Moura. A bela imagem foi encontrada na net, e está assinada por Landahlauts.]

2011/02/25

o prazer que se segue

Peter Hook (Joy Division/New Order) em «Unknown Pleasures»