2009/11/09

berlim renasceu a nove

Berlim, Berlim morreu a nove. // Cenário: / Yorckstr... sucessão de viadutos de ferro / enegrecidos pela ferrugem, / onde as velhas linhas para leste, / entregues à voracidade do tempo, / se equilibram sobranceiras... / (...) / Berlim, Berlim morreu a nove.

O texto vem da canção dos Mão Morta que em 1992 integrou o álbum «Mutantes S.21», um dos melhores da sua carreira. Nove é a data mágica de Berlim, a cidade dividida pela II Grande Guerra. Há vinte anos atrás, a 9 de Setembro, o governo da República Democrática Alemã aceitou fazer tombar o Muro e dar esse primeiro passo para a reunificação da Alemanha e para o fim da Guerra Fria na Europa. A velha Berlim morreu para renascer. Abaixo Berlim, viva Berlim. Berlim renasceu a nove.

2009/11/06

les garçons de paris

Ontem perdi-me no ciberespaço à procura de um vídeo que complementasse o texto de «Os Meninos De Lágrima». Estive tentado a colocar o teledisco de «Boys Don't Cry» dos Cure, mas depois acabei por escolher a versão gravada por Erlend Øye, o vocalista do duo Kings of Convenience. Nessa procura também ao sabor de outras descobertas e de recordações que me levaram até Paris e ao reencontro dos Taxi-Girl, na altura em que o grupo era constituído por Daniel Darc (o vocalista) e Mirwais Ahmadzaï (mais conhecido como guitarrista e produtor, particularmente através do seu futuro trabalho com Madonna).
Existiu como grupo entre 1978 e 1986, reconhecendo-se hoje um som já muito datado que cruzava influências do punk (via The Stooges) com uma sensibilidade neo-romântica (via Kraftwerk). O seu maior êxito foi o que deu título ao álbum de estreia, em 1980, que se chamou «Cherchez Le Garçon». É uma canção com um refrão simples e forte que combina com uma melodia hipnotizante de teclado. Quelque chose comme ça:

D'une bande magnétique
Un soupir lui échappe
Sur un écran géant ses yeux se ferment.

Chercher le garçon
Trouver son nom
Chercher le garçon.

Réveil tragique succède
A un sommeil sans rêve
La forme de son corp
Ne veut rien dire pour moi.

Chercher le garcon
Trouver son nom
Chercher le garçon.

D'une bande magnétique
Un soupir lui échappe
Sur un écran géant ses yeux se ferment.

Chercher le garçon
Trouver son nom
Chercher le garçon.

O vídeo que se segue e que se intitula «Paris» faz parte do álbum «1984-1986». Espero que vos surpreenda e agrade hoje, como me surpreendeu e agradou ontem a mim. Voilá:

2009/11/05

meninos de lágrima

Para facilitar, vamos por partes:
1) Eu sou (somos, cá em casa) completamente a favor da extinção das barreiras legais ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e também sou totalmente empenhado (somos os dois) na igualdade civil (sem restrições) dos casais formados por pessoas do mesmo sexo aos de sexo diferente;
2) Daqui se depreende que somos também convictos defensores do pleno acesso à adopção, fazendo-a depender apenas dos factores que sejam justos (os habituais, vamos dizer assim) e não de um conceito de sexualidade limitado, baseado nos modelos que prevêem um só pai, uma só mãe ou então, preferencialmente, um pai e uma mãe como "a" fórmula naturalista (talvez a primeira, a da primazia, mas não a única que sobra);
3) Sem ir mais longe, com isto ainda nos espantamos (apesar de todos os maus exemplos de que vamos sabendo a todo o tempo) por a sociedade portuguesa continuar a preferir ter crianças órfãs e abandonadas nos seus orfanatos — os seus "meninos de lágrima" —, defendendo para essas crianças um ideal que acontece menos vezes do que seria de desejar, dando-lhes somente uma mão cheia de nada, que são as promessas ainda e sempre à espera de se cumprir;
4) O meu (nosso) projecto pessoal de família não prevê a adopção (pelo menos de imediato), mas tal não impede que defendamos e lutemos por mais esse ideal, na óptica de uma maior igualdade social para nós e para todos, incluindo as crianças de hoje e os homens e mulheres de amanhã;
5) Somos contra qualquer referendo sobre o acesso ao casamento civil (como já se explicou na entrada anterior), compreendendo-se que a alteração à lei do casamento possa merecer e encontrar o consenso mais alargado possível da sociedade e do Parlamento ao excluir o acesso à adopção;
6) Talvez essa seja a melhor solução política imediata para obter apoios em quadrantes mais amplos, retirando força ao reaccionarismo que se vai manifestando ainda na sociedade mais conservadora;
7) Apostando no futuro e na mudança, continaremos a lutar acreditando que o tempo mostrará a quem cabe a razão, fazendo com que estes meninos deixem de ter os seus olhos banhados de tristeza.

2009/11/04

a cartada do referendo

Nem o Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, nem o deputado do CDS-PP, Ribeiro e Castro, defendem o referendo sobre a igualdade no acesso ao casamento civil porque acreditem que é matéria que democraticamente deva ser referendada. Os direitos não se referendam, muito menos os de uma minoria, ponto final. O que tanto D. Manuel Clemente como Ribeiro e Castro sabem, é que a campanha para um referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo daria o espaço necessário à exploração da homofobia e dos medos sobre o acesso de casais homossexuais à adopção. A criação de um circo referendário em torno dos direitos civis da minoria homossexual facilitaria, talvez, uma vitória do Não e, portanto, a interdição do casamento civil aos casais do mesmo sexo. Acontece que direitos não se referendam e muito menos os de uma minoria. Mais, se o argumento é o do debate, a questão tem vindo a ser discutida há vários anos, com especial intensidade em 2008 por motivo dos projectos de lei apresentados pelo BE e pelos Verdes em Outubro do ano passado. Se o argumento (rebuscadíssimo) é o da falta de legitimidade de uma maioria relativa do PS para mudar a lei, então não esqueçamos que a muito clara, noticiada e debatida intenção do PS de legislar sobre a matéria constava do programa eleitoral que foi a votos e ganhou. Mas a intenção de legislar no sentido de permitir o "casamento gay" também faz parte, se não explicita pelo menos implicitamente, dos programas do BE e de Os Verdes, como os eleitores que votaram neles bem sabem. A lei só passará se os votos destas três forças, em constituição de uma maioria absoluta de representatividade democratica e legitimamente concedida, assim o permitirem. Finalmente, se o argumento é o da comparação com o referendo sobre a IVG, não ignoremos que quando se discutiu interrupção voluntária da gravidez se discutiu um conceito bio-ético de vida e de direito à vida em colisão com os direitos das mulheres e, em certo sentido, dos homens, em geral. O direito dos homossexuais à igualdade perante a lei é garantido pela Constituição e deve traduzir-se na igualdade no acesso ao casamento civil, direito esse que em nada afectará o direito ao casamento já existente para os casais heterossexuais — que para nenhum efeito legal e vinculativo, portanto, têm de se pronunciar sobre o assunto.

2009/11/03

a soberba

Novo álbum de Benjamin Biolay — «La Superbe» — adquirido em edição limitada de coleccionador com o soberbo design gráfico do estúdio m/m (paris). 23 temas em duplo CD a começar pelo que dá o título genérico e a terminar com um bónus especial de «Les Grands Ensenbles». Benjamin, de 26 anos de idade, é mais um dos habitantes da nossa casa, desde que em 2003 o descobrimos em «Négatif». E continua a ser uma das promessas maiores da nova música pop francesa. Para os curiosos, ao lado tem-se temporariamente o primeiro teledisco (do disco) realizado por Clarise Canteloube.

PS — O casamento entre pessoas do mesmo sexo está no programa do actual Governo de Portugal. Orgulhamo-nos por ter dado o nosso modesto contributo para que isso se tornasse possível!

2009/11/01

a voz ...da frente

António Sérgio (1950-2009)

2009/10/25

em repeat ad aeternum

Já se passaram quase três meses desde a minha entrada com o título { 28 } e eis que finalmente tenho como meu (nosso) o novo CD de David Sylvian, «Manafon». E é bem mais, ainda, do que dele eu esperava. É estranho e belo. Profundo e subtil. Constante e surpreendente. Música de encanto! Daí que o recomende de novo, mais certo ainda do que estou a fazer. Daí também que vos deixe uma ligação mais acima (no título), para que possam saber mais e dele ouvir um pouco. Se não conhecem Sylvian vão achar estranho, sem esse encanto que me encanta a mim e já há muitos anos. Se o conhecem vão concordar e querer ouvir de novo, mais e mais, em repeat ad aeternum... Hoje faz 23 anos que conheci o Gonçalo. Que nos conhecemos. E este disco de que vos volto a falar hoje foi parte do inesperado presente dele para mim, nesta data que é a que evocamos lá em cima, no cabeçalho do blogue, onde indicámos "desde 1986". Foi uma data feliz, a primeira de muitas. Uma data que queremos recordar e também partilhar em repeat ad aeternum! A belíssima capa do disco, da série «Study In Green», foi feita pelo fotógrafo (e designer) holandês Ruud van Empel. E ainda dizem que o mundo é imperfeito!

2009/10/22

sínodo sueco aprova o casamento gay

Segundo a edição online do Jornal de Notícias (ligação acima), "a Igreja da Suécia aprovou hoje o casamento religioso dos homossexuais, que já era autorizado pela lei sueca desde 1 de Maio. A medida, que será aplicada a partir de 1 de Novembro, foi adoptada por uma maioria de cerca de 70 por cento dos 250 membros do sínodo sueco, indicou a instituição religiosa protestante em comunicado. No sínodo foi também aprovada uma liturgia para os casamentos homossexuais, de acordo com o mesmo comunicado. Aquando da adopção da lei pelo parlamento sueco em Abril último, a Igreja luterana, separada do Estado em 2000, apoiou a reforma mas adiou a aprovação formal para o sínodo."
Ao contrário do que acontece em muitos dos outros países que têm legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, na Suécia "os casais heterossexuais podem escolher entre o casamento civil e o religioso, enquanto que os casais homossexuais só estavam autorizados, desde 1995 e até agora, a unirem-se através de uma parceria tornada legal por uma cerimónia civil."
Na Suécia o Estado e a Igreja estão separados (ao contrário do Reino Unido, onde a Igreja é liderada pela Rainha), fazendo com que esta decisão tenha uma grande importância em termos de consciência social, religiosa e de Estado. O texto do Jornal de Notícias lembra ainda que "o casamento religioso tem neste país nórdico valor civil."

2009/10/20

é só um beijo, mas são 4 anos

Um beijo é (diz-se) só um beijo, mas com esse mesmo de há 4 anos atrás há hoje que recordar um momento, um veículo, uma direcção e também um percurso e um destino... em boa companhia, neste blogue. Obrigado a todos!

2009/10/16

o bloco contra-ataca

Segundo o Diário de Notícias, o Bloco de Esquerda (BE) terá entregue hoje na Assembleia da República um diploma que pretende legislar sobre o alargamento do casamento civil a pessoas do mesmo sexo, desafiando o Partido Socialista (PS) a pôr em prática o seu "discurso do diálogo". Em conferência de imprensa o novo líder parlamentar do BE, José Manuel Pureza, terá mesmo dito que "se outras forças políticas convergem para soluções neste terreno isso significa que fizeram um caminho e que está aberta a possibilidade de pôr termo a situações de discriminação totalmente inaceitáveis", o que é uma verdade mais do que óbvia. A nova voz do BE disse ainda ter uma "expectativa grande" quanto à reacção do PS nesta e noutras matérias como uma proposta para suspender a avaliação dos professores e uma outra para aumento e requalificação das prestações da Segurança Social.
Se este calor de Verão já fora de época nos deixar de repente parece muito certo que o Inverno não será menos quente. Mas depois do Inverno, como será?...

[Imagem de Wilson Dias/ABr, CC 2.5]