Com a 1ª Feira do Livro LGBT do Porto a terminar hoje, parece-me oportuno lembrar um dos livros de referência no desenvolvimento da minha própria personalidade: o fabuloso ensaio de Guilherme de Melo, publicado em 1982 como primeiro volume da coleção Cadernos de Reportagem (da Relógio d'Água), com o título «Ser Homossexual Em Portugal».Descobri esta pequena maravilha durante a minha visita a Paris, no início dos anos 80, na noite em que me emprestaram um quarto universitário que estava temporariamente vago. Se não me engano era um quarto com três camas e junto a uma delas estava este pequeno livro. Sozinho, à noite, comecei a lê-lo:
- Tás a vê-lo? É aquele acolá. O da camisa com aqueles barcos desenhados... Não achas que o gajo é camone?
Assim que começou, a leitura só terminou no fim, já pela noite dentro. Nas escassas 60 páginas tinha aprendido imenso sobre questões que se levantavam a um jovem com muitas dúvidas e que não eram abertamente (nem às escondidas, sequer) apresentadas e debatidas no meu distante país. O autor resumiu eficazmente todos esses temas a apenas catorze capítulos:
-O engate
- Ser (ou não) maricas
- Uma falsa abertura
- O papel da família
- Quem educa quem?
- Ser jovem - aqui e agora
- O "terceiro sexo": sim - ou não?
- O homossexualismo feminino
- A linguagem dos números
- O homossexualismo tem aumentado
- Um falso conceito
- Dos "bons" e dos "maus" malandros
- As vozes no vento, e
- O homossexual um marginal?
De forma simples, mas eficaz, Guilherme de Melo apresentava a sua visão pessoal e jornalística do que era ser homossexual num país que fizera uma revolução há menos de dez anos e se esquecera deliberadamente (sim, deliberadamente!) desta libertação. Tudo é visto e dissecado de forma objetiva e clara, como aqui, neste depoimento:
- Para mim, ser mulher é uma coisa; ser homem, outra. Antes de ser homossexual, sou homem. (...) Porque o homossexualismo é o amor entre dois homens. Ou, no campo feminino, entre duas mulheres. Não é um sentir-se homem e outro a fingir de mulher. Isto para mim é muito importante.
O indivíduo que assim me fala tem trinta e dois anos e é caixa num banco.
«Ser Homossexual Em Portugal» marcou uma viragem na minha própria consciência. Ajudou-me a perceber quem eu era, numa altura em que teria pouco mais de vinte anos. Quase trinta anos depois este continua a ser um livro de referência na minha vida. Tenho pena que já não se encontre disponível no mercado, nem tão pouco na nossa feira do livro, que abre hoje de novo no Centro Comercial Bombarda (Rua de Miguel Bombarda, no Porto) a partir das 12h e encerra às 20h. Antes disso, haverá pelas 14h um workshop de ilustração com Sandra Luís e às 18h uma apresentação com a escritora Marisa Medeiros. Eu estarei lá!
2 comentários:
Gostava de ter ido a essa feira do livro.
Ultimamente tenho comprado e lido muitos livros LGBT e decerto lá encontraria alguns que procuro.
Do Guilherme de Melo tenho por assim dizer tudo e reli há pouco, a maioria deles; o melhor é sem dúvida "A Sombra dos Dias".
Olá João! A feira foi gira e correu muito bem. Estou certo de que para o ano haverá mais! Um abraço.
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