2008/06/12

mostrar e lembrar

«Escrevo Para Desistir» foi escrito por Isabel de Sá e lançado à rua há duas décadas pela editora & etc. Um excerto, lido à página 53:

Faltou-me sempre paciência para guardar um manuscrito. À medida que o texto se forma vou destruindo as páginas que parecem imperfeitas. Trato a escrita com displicência, assim é a caligrafia desses instantes, sem o gosto que lhe imprimo ao escrever cartas.
Ao pensar na essência da palavra, nas cartas do pintor a seu irmão, detenho-me na última: "O meu trabalho, nele arrisco a vida e nele perdi, em parte, a razão". O testemunho da dor humana faz-nos aquietar as flutuações do espírito. Triunfar na dificuldade de cada dia. Esse grito agónico é particularmente visível nos "auto-retratos", na sua crispação e tragédia. Também nós somos mais visíveis quando ao espelho deciframos o tumulto que muitas vezes nos impede de viver na claridade.

Isabel começou na & etc em 1979, com «Esquilo Frenia» e «Escrevo Para Desistir» foi o seu oitavo livro publicado, com data de 1988.
Amanhã, 13 de Junho de 2008, fará mais um ano (o 11º) que Al Berto — escritor também e co-fundador da & etc — nos deixou. Pela amizade e pela saudade não ficará mal lembrá-lo na citação deste poema.

9 comentários:

Catatau disse...

Gosto das publicações da & etc. Não conhecia a Isabel, mas parece-me rapariga lúcida e reflexiva.

Aplaudo de pé o Al Berto e leio-o. Sempre. :)

Luís disse...

Olá Catatau! A & etc é editora de referência e a Isabel é mesmo para conhecer melhor, mais não fosse pelo link que deixámos lá em acima. Depois, não terás dificuldade em encontrar os seus livros no nosso Porto... O Al Berto merece uma vez mais e sempre o aplauso a que te referes. E lê-se ainda com a mesma vontade das primeiras noites. Abraço,

Special K disse...

Sempre Al Berto! Já agora Pessoa e Eugénio que também ficaram ligados a este dia.
Um abraço.

Luís disse...

Special: O Al Berto, eu conheci. E apesar da sua partida, a escrita dele continua plena de contemporaneidade. Toca-me e é especial para mim, por isso mesmo. Pessoa é uma outra figura, maior sem dúvida em muitos aspectos mas já clássica, apesar da sua modernidade. Eu acho bom reencontrá-lo, sobretudo por exercício de intelectualidade. Já o Eugénio era de cá, mas nunca o vi em pessoa, nem o vivi com verdadeira emoção. É um assunto que tenho para resolver. Não sei como o farei, mas talvez o tente de novo, um dia próximo. Com respeito pelos três — o que nasceu a 13 de Junho e os dois que morreram nessa data — eu deixo uma homenagem colectiva pelas ligações da barra lateral. Lá no topo continua uma para a Isabel de Sá, que é na verdade o principal objecto da nossa atenção.

(Um bom dia de Santo António, para todos vocês.)

João Roque disse...

Caros amigos
quando estivemos aí em vossa casa, lembro.me de termos falado da excelência da & ETC; também eu não conhecia Isabel de Sá e é assim mais uma referência que vocês me oferecem.
Sabendo do conhecimento pessoal com o Al Berto, é mais do que justificada a referência a este poeta tão grande, mas menos lembrado que Pessoa.
Abraços.

SP disse...

Muito bom gosto!!!
Já tens o DEZ CARTAS PARA AL BERTO? Eu gostei muitooooo.
Um abraço.

Anónimo disse...

Não conhecia esta escritora. Não gosto muito do título, mas o excerto cativou-me.
Na feira do livro ainda se encontram muitos títulos desta editora.

Tem graça que tb conheci pessoalmente o Al Berto. Ainda ali tenho uma dedicatória num dos livros dele.Fizeste-me lembrar outros tempos e outras pessoas.

Dia fatídico e dia feliz este, pelos vistos. Dia de homenagens.

Anónimo disse...

Muito bem a reprodução do livrinho e a referência à poeta Isabel de Sá. Esta poeta está referenciada na História da Literatura, ao lado do Luís Miguel Nava, são os dois poetas mais relevantes dos anos 80.
Aproveito para chamar a atenção a uma sessão de poesia e análise da sua obra,na Fundação Eugénio de Andrade, no Porto, no próximo Sábado 21 de Junho, pelas 18.30h.

Luís disse...

Pinguim: Uns dias após a vossa partida do Porto voltámos às arrumações da nossa biblioteca (estante de livros), e agora a & etc está mais juntinha e, portanto, mais à mão. E são uns quanto (mesmo que não sejam demasiados) os livrinhos da editora que fomos juntando e lendo... E são todos tão bons!... Abc,

SP: As "Dez Cartas Para Al Berto" ainda não comprei, mas tenho algumas inéditas dele na gaveta. Tenho curiosidade de lê-lo... Em breve! 1abc, também,

Rui: Há uns anos eu escrevia para desistir de pensar numas quantas coisas. Às vezes eram as minhas cartas de amor para os amantes que desejei ter e quase nunca tive. Há muitas maneiras de se escrever, mesmo para desistir. Tenta outro título da Isabel. Talvez te agrade. Também 1abc,

Graça: Hoje já te respondi por e-mail privado, mas agradeço as palavras elogiosas e os detalhes extra. Beijinho, até breve,