Para a capa do primeiro número de Natal da Com'Out, estava já a contar (frivolamente, eu sei) com uma daquelas imagens de um pai natal sexy e meio despido, talvez representado por algum dos nossos lindos novos actores. Ou a fotografia fantástica de alguma personalidade que neste número fizesse o seu com'out... Mas o casamento é um tema excelente também, talvez a deputada Marta Rebelo traga boas notícias, pensei. Mas as más escolhas começaram logo na frase que na capa destaca a entrevista: «Marta Rebelo — a deputada do PS explica o Não ao casamento gay». Casamento gay? Não sou um defensor do politicamente correcto a todo o custo, mas a linguagem é importante para definir as coisas na cabeça das pessoas, e não se trata (a Com'Out deveria sabê-lo) de criar uma nova figura de casamento, mas sim de conceder igualdade no acesso ao casamento civil que já existe. O título deveria ser então: Marta Rebelo — a deputada do PS explica o Não aos gays. Mas tudo bem, passemos então à entrevista e às boas notícias ou, no mínimo, às boas explicações. Abrimos na página 20 e ficamos logo a saber que a deputada votou contra mas está bem com a sua consciência. O deputado Manuel Alegre esteve bem no voto a favor porque o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo constava do seu programa presidencial, explica, donde concluímos que se pode trair as nossas convicções, sempre e quando elas não constem de um programa eleitoral. Depois vem o argumento da necessidade de maior consenso nacional e mais debate — mas como é que o PS tem cara para falar em mais debate, se a disciplina de voto do "Não" cria um muro em torno da questão e reforça a convicção de quem é contra? Debater seria ter deixado que os deputados votassem segundo as suas convicções; a lei muito provavelmente não seria aprovada, na mesma, mas o debate criaria confronto aberto de ideias e demonstraria ao público e aos eleitores quem pensa o quê. De resto, e de tão óbvios e repetitivos, não vale a pena reproduzir os argumentos, que são os mesmíssimos que já haviam sido utilizados na altura da votação pelos porta-vozes do PS e pelo próprio Sócrates, só que agora em vez de ser pela voz de um "barão" conservador é pela voz de uma bonita e jovem deputada que diz não ter «uma gota que seja de homofobia». Para terminar em beleza, a deputada revela, em resposta a se os seus amigos teriam ficado desiludidos com ela: «(...) Também confesso que tenho muitos amigos homossexuais, que nunca manifestaram vontade de casar. Inúmeros amigos meus vivem em união de facto, talvez por isso não tenham inquirido tanto sobre o meu sentido de voto.» Que é mais ou menos, desculpem-me a dureza da comparação, como quem justificasse um voto contra a IVG com o argumento de que os amigos até queriam ter filhos. Posso compreender que a Com'Out desse ao PS uma oportunidade de se explicar, não compreendo que perante o resultado da entrevista (aliás demasiado passiva por parte do interlocutor) tenham dado o destaque e o glamour que lhe deram. Não, senhora deputada, o meu voto continua a ir para o Bloco de Esquerda — com mais ou menos oportunismo, fizeram constar do seu programa eleitoral o acesso de casais homossexuais ao casamento civil e cumpriram. Para terminar, relembro que José Sócrates continua a argumentar, quando o interrogam sobre o assunto, que não existe um número significativo de pessoas a reclamar a igualdade no acesso ao casamento civil. Se não começarmos a reclamá-lo mais claramente acabaremos por não o ter ou tê-lo apenas numa figura jurídica de segunda.
2008/12/12
não, senhora deputada
Para a capa do primeiro número de Natal da Com'Out, estava já a contar (frivolamente, eu sei) com uma daquelas imagens de um pai natal sexy e meio despido, talvez representado por algum dos nossos lindos novos actores. Ou a fotografia fantástica de alguma personalidade que neste número fizesse o seu com'out... Mas o casamento é um tema excelente também, talvez a deputada Marta Rebelo traga boas notícias, pensei. Mas as más escolhas começaram logo na frase que na capa destaca a entrevista: «Marta Rebelo — a deputada do PS explica o Não ao casamento gay». Casamento gay? Não sou um defensor do politicamente correcto a todo o custo, mas a linguagem é importante para definir as coisas na cabeça das pessoas, e não se trata (a Com'Out deveria sabê-lo) de criar uma nova figura de casamento, mas sim de conceder igualdade no acesso ao casamento civil que já existe. O título deveria ser então: Marta Rebelo — a deputada do PS explica o Não aos gays. Mas tudo bem, passemos então à entrevista e às boas notícias ou, no mínimo, às boas explicações. Abrimos na página 20 e ficamos logo a saber que a deputada votou contra mas está bem com a sua consciência. O deputado Manuel Alegre esteve bem no voto a favor porque o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo constava do seu programa presidencial, explica, donde concluímos que se pode trair as nossas convicções, sempre e quando elas não constem de um programa eleitoral. Depois vem o argumento da necessidade de maior consenso nacional e mais debate — mas como é que o PS tem cara para falar em mais debate, se a disciplina de voto do "Não" cria um muro em torno da questão e reforça a convicção de quem é contra? Debater seria ter deixado que os deputados votassem segundo as suas convicções; a lei muito provavelmente não seria aprovada, na mesma, mas o debate criaria confronto aberto de ideias e demonstraria ao público e aos eleitores quem pensa o quê. De resto, e de tão óbvios e repetitivos, não vale a pena reproduzir os argumentos, que são os mesmíssimos que já haviam sido utilizados na altura da votação pelos porta-vozes do PS e pelo próprio Sócrates, só que agora em vez de ser pela voz de um "barão" conservador é pela voz de uma bonita e jovem deputada que diz não ter «uma gota que seja de homofobia». Para terminar em beleza, a deputada revela, em resposta a se os seus amigos teriam ficado desiludidos com ela: «(...) Também confesso que tenho muitos amigos homossexuais, que nunca manifestaram vontade de casar. Inúmeros amigos meus vivem em união de facto, talvez por isso não tenham inquirido tanto sobre o meu sentido de voto.» Que é mais ou menos, desculpem-me a dureza da comparação, como quem justificasse um voto contra a IVG com o argumento de que os amigos até queriam ter filhos. Posso compreender que a Com'Out desse ao PS uma oportunidade de se explicar, não compreendo que perante o resultado da entrevista (aliás demasiado passiva por parte do interlocutor) tenham dado o destaque e o glamour que lhe deram. Não, senhora deputada, o meu voto continua a ir para o Bloco de Esquerda — com mais ou menos oportunismo, fizeram constar do seu programa eleitoral o acesso de casais homossexuais ao casamento civil e cumpriram. Para terminar, relembro que José Sócrates continua a argumentar, quando o interrogam sobre o assunto, que não existe um número significativo de pessoas a reclamar a igualdade no acesso ao casamento civil. Se não começarmos a reclamá-lo mais claramente acabaremos por não o ter ou tê-lo apenas numa figura jurídica de segunda.
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5 comentários:
Amigo Gonçalo
eu não gosto, por norma, de comentar temas políticos, pois na política, como na religião, cada um é livre de pensar e escolher o que é melhor para si; mas, e passando pelo facto de que já deixei o meu testemunho de que concordo com os casamentos gay, porque não somos diferentes, embora nunca me casasse (nem com um homem nem com uma mulher), acho que justificar o voto num partido só porque é o único no nosso país a aceitar sem reservas e a lutar pelo casamento homossexual, será talvez um pouco redutor; eu aprecio o Bloco de Esquerda e o contributo positivo que tem dado à vida política portuguesa, mas se votasse nele seria pela sua política global e nunca por uma questão apenas, por importante que seja; e não vejo que a Com'Out esteja com este artigo a defender o PS neste assunto, mas apenas a emitir as opiniões de uma das poucas pessoas que no Parlamento do nosso país têm a coragem de manifestar a sua orientação sexual.
Desculpa o desabafo, mas entendo a blogosfera como um local de debate de opiniões, desde que trazidas com educação e amizade.
Abraços.
Peço desculpa de ter referido algo errado no comentário anterior, e isto porque a deputada em causa afirmou ser heterossexual; tal não invalida no entanto, a essência do que eu afirmei.
Abraço reforçado.
Olá pinguim,
obrigado pelo teu comentário.
Eu não digo em lado nenhum, acho, que a razão porque votarei no BE se resume à sua posição sobre o casamento civil, só que outras razões não vinham a propósito nesta entrada ou noutra em que já tinha afirmado essa intenção de voto. Mas ao contrário de ti, eu casaria, se pudesse, e ter direito a fazer essa escolha é uma razão central para votar neste ou naquele partido, sobretudo quando estes, em tudo o resto, parecem ser tão uniformemente cinzentos e incapazes. Quanto à Com'Out, que continuo a considerar um dos acontecimentos do ano, acho que se não está a defender a posição do PS anda lá muito por perto. Eles anunciam que a deputada dá as explicações que faltavam, mas já tudo o que ela diz havia sido dito por outros no PS — nada de novo a justificar um artigo com aquele destaque. Mas esta é também só a minha opinião.
Abraço.
Boas... ainda bem que há algo para comentar.. e vou comentar o post e os comentários... (o artigo é que não o li... e ainda não fiz tensões de comprar a revista... gostos ou desgostos...)
Amigo Pinguim, como tudo na vida (e eu que o diga, que fui apanhado numa questão de discussão de gostos) "cada um é livre de pensar e escolher o que é melhor para si" quer seja política, religião, música,etc
Há é que expressar a nossa opinião (de preferência fundamentando-a) e respeitando a dos outros (na medida do possível).
Gonçalo E Pinguim, sempre afirmei (ou penso que o fiz) de que a questão do casamento trata-se da igualdade de um direitos entre seres humanos: não gosto dos políticos meterem-se nestes assuntos, pois tentam sempre capitalizar votos...
E da mesma forma, não gosto de revista cujo objectivo é o lucro, tentem "manipular" o assunto... E neste caso, parece que ficamos numa indefinição: para que lado pende a Com'Out? Talvez para o dela mesmo, ou seja, o de ir buscar temas apelativos e fazer vender a revista...
Ou seja, continuamos a que sejam pessoas alheias ao assunto a terem poder de dizer o que lhe quer e apetece...
Felizmente eu vivo bem ser a deputada (e os compadres dela) e sem a Com'Out...
No fim disto tudo só quero acrescentar que partilho substancialmente do ponto de vista do Gonçalo e que isto mais não foi do que um alerta para algum desconforto vindo das palavras da senhora que fez capa neste número da Com'Out. Porém, continuamos a adquirir assiduamente e a ler com todo o interesse esta voz essencial na imprensa portuguesa. Nesta fase eu acho que há que fazer muita exposição das nossas preocupações (desigualdade de direitos - é isso se ainda alguém não percebeu!) e pressão para que rapidamente se avance para adequada legislação. A Com'Out poderá (assim espero) contribuir para uma maior projecção de opiniões "de referência" e para o seu "come out" também. De resto, por muito que quisesse, nas próximas legislativas eu não poderia votar num partido que sonegou o debate e a aprovação de direitos fundamentais (previstos na Constituição da República em propaganda que não foi tão estranha assim ao Partido Socialista), em troca de vitórias políticas sem proveito para ninguém.
A NOSSA LUTA É POR ESSE DIREITO
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