2007/02/12

crónica de uma esperança adiada

Esta bela imagem é do ilustrador James Jean, que podem conhecer melhor pelo link no título. Mas é sobre o referendo de ontem que aproveito para escrever um pouco. "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" foi a questão que uma vez mais me levou a pronunciar-me. O que não foi nada fácil. Primeiro por me refugiar numa indecisão que de forma alguma conseguia ultrapassar. Depois porque a chuva diluviana do final da tarde quase exigia que nos demitíssemos do dever. Dizem que a esperança é a última a morrer e como cresci com a democracia, lá fui eu mais esta vez dar mostras de defensor e de praticante. Entrei na sala que já bem conhecia e só então soube o que fazer com aquele papel. Se concordo com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, eu diria que não talvez, que a penalização deveria existir mas ser sábia e ponderada em função das razões, da repetição, da banalização, e que deveria beneficiar a sociedade em vez de colocar os sentenciados na prisão; se pode ser realizada por opção da mulher, já eu discordo absolutamente porque uma gravidez é o resultado de dois progenitores e só em situações extremas como a de uma violação é que uma interrupção voluntária da gravidez deveria poder ser tomada unilateralmente, por opção da mulher ou do homem consoante qual deles tenha sido o violador ou o violado (pois!); se, por fim, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado, nesse caso concerteza que sim mas — se temos tanta falta de verbas e equipamentos para os cuidados mais essenciais de saúde e não só — de onde virá o dinheiro necessário para tal?... Eu fiquei com estas dúvidas e isso foi suficiente para não subscrever só pela intuição algo que é demasiado definitivo para o que está em causa. Além de que me preocupa bastante a possibilidade de, nestas circunstâncias, num futuro ainda próximo se tornar possível a qualquer mulher rejeitar antes das 10 semanas qualquer possibilidade a um bebé com olhos, ou cabelos, ou qualquer outra particularidade que os médicos antecipem e seja menos do seu agrado. Será aí que isto nos leva também?... Poderá ser isto uma inocente repetição da história?... Deixem-me a vossa opinião contando que no meu silêncio excepcional eu ficarei a seguir os vossos generosos comentários. Por outro lado, se antes me falarem de podermos ser todos cidadãos a 100%, de podermos ter todos direitos e deveres equiparados, força que aí não me restam dúvidas pois não vejo os direitos de ninguém a serem postos em causa. A espera vai já longa, muito, e essa sim será a grande questão que o Governo e a Assembleia da República, ou os Portugueses, terão que equacionar quanto antes. Nesta legislatura e não na próxima porque a espera vai muito longa e de esperanças adiadas já basta!

6 comentários:

dcg disse...

Tenho estado ausente dos blogs, mas ao regressar aqui, deparo-me com uma série de posts interessantíssimos.
Neste consegues descrever as que são também minhas convicções. Parabéns pela clareza. Eu não votei, dada a minha ausência. Tive pena, pois nasci e acredito convictamente na democracia.
Um abraço.

Anónimo disse...

olá Luís, bem reaparecido sejas...
Claro que concordo com tudo o que dizes; é importante quando não há certezas absolutas, ponderar devidamente, antes de decidir, mesmo numa coisa tão "banal" como o sentido de voto num referendo como este.
Abraços.

Anónimo disse...

aqui está um texto no qual me revejo.

um abraço, Amigo.

Tiago

Anónimo disse...

DCG, Pinguim e Anónimo-Tiago: Disse que não faria comentários e apenas continuo à espera que alguém mais porventura se lembre de dar opinião - a favor ou contra, como entender. Por mim só quero mesmo agradecer muito aos três por já o terem feito. Abcs tb,

Anónimo disse...

Luis, subscrevo sem reserva mental o teu texto. Escrita agradável, clareza no raciocínio, realismo nas dúvidas, justeza nos juízos, moderação nas opções, abertura ao futuro com sentido de responsabilidade. Bem hajas!
Abraço, Th.M.

Anónimo disse...

Caro Th.M., eu agradeço as palavras e espero saber mais de ti. Que tal um blogue? Avisas?... Abc,