2009/06/13

encomenda postal

destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica

depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu

e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta

[«Encomenda Postal» é um poema de Al Berto vindo dos «Sete Poemas do Regresso de Lázaro» que «O Medo» contém e a que se regressa para o recordar e enaltecer hoje, no dia do 12º ano após a sua morte.]

5 comentários:

pinguim disse...

É bom recordar esse príncipe da poesia contemporânea portuguesa, que foi Al Berto; doze anos...parece que foi ontem...
Abraços.

JotaSP disse...

Obrigado por este poema de Al Berto_________________________________


Um abraço assim «««

Luis disse...

Pinguim: Parece que foi ontem, sim. E não muito mais que o conhecemos (um encontro marcado na Feira do Livro de Lisboa, e a seguir que nos encontrámos uma e outra vez - em Lisboa, no Porto). E logo depois, que ele foi em viagem e que quando voltou já não nos encontrámos de novo pois... fez-se já tarde demais (escorre-me uma lágrima do coração - ou será que é da alma?). Al Berto foi um grande poeta e de forma simples e sincera foi também um grande amigo que perdemos e gostamos de recordar!

JotaSP: Este é só 1 poema de Al Berto, é só 1 gota do oceano infindo da sua poesia. Os poemas de Al Berto não se esgotam na quantidade, nem no tempo. Obrigado pelo reconhecimento___

Abraços x dois,

Paulo disse...

lembro-me bem! como o tempo passa e às vezes a memória é curta!

abraço

Luis disse...

O tempo passa depressa de mais, mas com o Al Berto a memória nunca se cansa, nem nunca o esquece....

"Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro. / Víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário. / Víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. O latejar do tempo na humidade dos lábios. / E a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. As estrelas mortas das cidades imaginadas. / Os ossos [tristes] das palavras."

Este é só um excerto do "[Prefácio Para Um Livro de Poemas]" e já o sublime nos é revelado...

Abraço, amigo!