2011/01/14

o criminoso da moda

Com tanta expressão de solidariedade com Renato Seabra, como que a pretender desculpar o homicídio de Carlos Castro, um certo povo (conservador e homofóbico, vê-se bem) está a provocar a generalidade dos homossexuais e a desafiar a sociedade e, por vezes, talvez até a própria Lei. Além de que provoca uma reacção que faz da vítima (sim, da vítima) um mártir que todos dispensaríamos... Sem mais delongas, num momento que deveria ser de isenção e de respeito, mas também de reflexão e de rigor, eu abuso da bondade de um escritor amigo ao permitir-me (sem prévia autorização) reescrever na íntegra um dos seus poemas mais recentes, lido em livro de 2010, que me parecia adequar-se ao caso. Assinou-o José António Almeida em «Obsessão», obra que a &etc editou. Debaixo do título «O Criminoso da Moda», na página 21, ele escreveu assim:

O criminoso não é
a soldadesca de Hitler
agora, o criminoso

da moda seduz: à cama
leva nos braços a vítima,
ameaça a céu aberto

sob o sol primaveril.
Primeiro beija, de Judas
aperfeiçoou a técnica

do cânone, truques novos
tem também de malas-artes.
Lança minhoca, sorri

como quem coita não quer,
tudo faz de olhos cerrados
só depois os cães açula.

Este poema é precedido de uma citação do escritor italiano Primo Levi (1919-1987): "Ogni tempo ha il suo fascismo". Que nos sirva de conclusão, triste porém! Outras obras de José António Almeida podem ser encontradas nas melhores livrarias, sugerindo-se à partida o seu trabalho de reflexão «O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste»(&etc, 2009). Quanto ao suspeito do crime, que justiça se faça. E, mesmo que se faça, a Justiça nunca será suficiente para fazer "rewind" e tornar os acontecimentos em não acontecidos. Lamentavelmente!

6 comentários:

pinguim disse...

Já em vários comentários deixei expressa essa imagem, que cresce dia a dia: está a criar-se um novo mártir.
As imagens televisionadas da "manifestação espontânea" de ontem à noite, em Cantanhede, local onde TODA A GENTE está com o Renato, com aquele cordão humano, depois da missa (era fundamental uma missa), é do mais ridículo a que tenho assistido.

Luís disse...

Para que fique bem claro: o mártir a que me refiro é o nosso Carlos Castro. Ele é a vítima de um crime hediondo e isso já seria demais. Só que há muita gente a querer inverter a situação e a pretender fazer um herói do suposto criminoso, apelando a valores que não têm valor nenhum! É tudo muito lamentável, mais ainda por não se pôr um ponto nisto. Como dizia alguém: neste caso a culpa foi do "velho paneleiro"; mas se a namorada e agressora fosse uma rapariga (ao estilo de alguém que nós conhecemos), já se diria "coitado do velho" e que tudo foi por culpa da puta. Essa observação concluía que, em Portugal, as culpas são sempre dos paneleiros ou das putas. Como povo precisamos de unidade. E a unidade faz-se por favores que sirvam a todos, que nos unam, que nos equiparem. Dividir para conquistar continua, porém, a ser a vantagem de muitos!

heMan disse...

interessante o espaço. voltarei!

Luís disse...

heMan: obrigado! Vamos estar atentos, também :)

nUno disse...

Não acho que nenhum deles seja um mártir... SUPOSTAMENTE caíram ambos nas suas tentações.

Na altura dos acontecimentos, eram os dois maiores de idade e por isso mesmo são ambos responsáveis pelos seus actos.

Luís disse...

nUno: neste caso, poderia ser um mártir aquele que sofreu a sua morte por ser homossexual. Mais ainda se a sociedade continuar a desculpar o criminoso por esse facto. Para além desse, todos são válidos para julgar um e outro pois (como disseste) "eram os dois maiores de idade e por isso mesmo ambos responsáveis pelos seus actos". Abraço,