2010/03/06

o anunciador

Turbulento rapaz, agitado e nervoso,
De quem ninguém domina a vontade potente,
Já se vê fulgurar nos teus cabelos de oiro
Um sonho incandescente.

Um brilho em chama a arder, de fornalha e de sangue,
Aceso no vincar de teus lábios frementes,
Pinta soberbamente em tinta deslumbrante
Tuas maçãs salientes.

A esperança de colheres o fruto proibido
E o vago pressentir das feridas futuras
Arrebitam prò céu teu nariz desmedido,
Em busca de aventuras.

A testa imperiosa e feroz, abaulada,
Que se incendeia já de revolta e de guerra,
Tem a sombria luz da nuvem carregada
Que o vendaval encerra.

A mão italiana, em jeito mole, lascivo,
Por vontade tenaz fortemente crispada,
Parece procurar num gesto convulsivo
O punho duma espada.

Rápidos, a tremer, vibrando num clarão,
Agudos no ferir como zagaias finas,
Os teus quentes olhares zebram a escuridão
Com mil setas felinas.

A boca sensual e grossa, a rir de cor
Vermelha, como golpe abrasado e profundo,
Parece antegozar algum imenso amor
Que há-de mudar o mundo.

Tua crença? O capricho! Tua lei? O prazer!
Teu apetite enorme e que de si se nutre,
Rápido, cairá sobre o que apetecer
Com as garras de abutre.

Verás teu coração, onde os avós repousam
E que virgem será de sonhos terra a terra,
Bater dentro do peito, heróico e glorioso,
Como um tambor de guerra.

Belo anunciador dos soldados a andar
Neste limiar vil dos tempos impassíveis,
Salve! Na tua fronte eu sinto flutuar
Bandeiras invencíveis.

Vai! Que o chefe serás dos homens que, algum dia,
A rir hão-de pregar, qual um mocho, na porta,
Pla tua mão quebrada e desfeita e sem vida,
Nossa quimera morta.

Anda! Não cuidarás nem do bem nem do mal:
Viverás sem pensar, num frenesim selvagem,
Primário como um deus, são como um animal,
Ó moço de pilhagem!

E tua obra, a esmagar de desdém, com verdade,
Os escravos do verbo em ânsia inatingida,
Confrontará o Sonho com a Realidade
E a Arte com a Vida.

Versão por A. Herculano de Carvalho de «L'Annonciateur», de Albert Giraud (1860-1929), publicada em 1981 no «Oiro de Vário Tempo e Lugar», antologia de poesia de São Francisco de Assis a Louis Aragon, com a chancela de O Oiro do Dia... para o meu pai (1917-1996), que amanhã estaria de parabéns.

4 comentários:

João Roque disse...

As datas "perseguem-nos", amigo Luís.
Hoje seria o aniversário do teu Pai.
Na sexta feira fez 21 anos que o meu partiu...
Abraço amigo.

Luís disse...

É verdade, Pinguim. As datas são importantes para nós, porque as pessoas que recordamos também o foram. Eu assinalo todas, as da partida e as da chegada. Mas são os nascimentos que prefiro por me trazerem um momento positivo, apesar da perda. Um abraço especial, pelos teus!

Anónimo disse...

Um belo poema para um pai que se ama.
Parabéns. Ao filho e ao pai que fez o filho que escolheu o poema.

Francisco Herculano

Luís disse...

Obrigado, Francisco, muito obrigado!