Na Quinta do Marquês, em Oeiras, concentram-se estátuas dos grandes poetas (e prosadores) portugueses e, entre elas, uma de Mário de Sá-Carneiro (da autoria do escultor Francisco Simões) em bela pose que a imagem perfeitamente documenta.O Mário nasceu a 19 de Maio de 1890 no 3º andar do número 93 da Rua da Conceição, em Lisboa, e morreu em 1916, com apenas 26 anos de idade. Foi íntimo e colaborador do grande Fernando Pessoa, mas a sua obra foi distinta e autónoma, pautada pelo desencanto, pela solidão, pela obsessão e pela doença... do corpo e da alma, como se costuma dizer. Suicidou-se a 26 de Abril em Paris, no seu quarto do Hotel de Nice (hoje chamado Hotel Ninon), situado ao nº 29 da Rue Victor Masse.
90 anos depois da sua morte, a obra de Sá-Carneiro continua ainda hoje aberta a interpretações, mas parece mais que óbvio e quase universal que nela explorou também e insistentemente a (sua própria?) vertigem sexual, como parece incontroverso no caso da novela «A Confissão de Lúcio», centrada nos relacionamentos amorosos entre Lúcio, Marta e Ricardo de Loureiro. O mesmo se passa com «Feminina», um poema escrito em Paris no mês de Fevereiro do ano do suicídio, onde uma outra sexualidade — uma outra identidade sexual — é conjecturada como uma vontade bem sua:
Eu queria ser mulher para me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para puder estender
Pó-de-arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.
Eu queria ser mulher para não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro —
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer potins — muito entretida.
Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
e aguçá-los ao espelho, antes de me deitar —
Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios,
que num homem, francamente, não se podem desculpar.
Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
e enganá-los a todos — mesmo ao predilecto —
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me puder recusar...
São curiosas a ilações que surgem do verso com que Mário de Sá-Carneiro termina, ao dizer-nos querer ser mulher para (na condição feminina) se puder recusar a si próprio (ao ser masculino universal, no fim de contas). No título desta entrada há a ligação a um pdf com 188 páginas da monografia sobre o autor realizada pela Biblioteca Nacional em 1990.
Sem comentários:
Enviar um comentário