2006/08/02

a glória da nudez

É Verão, chego a casa e, agora que trabalho o dia inteiro de fato e gravata, tenho um prazer especial em descalçar-me e despir a roupa e, por breves instantes, gozar a nudez antes de voltar a vestir-me com peças mais ligeiras. E depois na praia. Que estar ao sol, sobre a areia em frente ao mar, produz uma sensação formidável e acessível, já todos os milhões de pessoas que o fazemos descobrimos. Que fazê-lo em total nudez potencia esse bem-estar talvez nem todos o tenham descoberto, talvez nem todos tenham tido a oportunidade e as condições para o descobrir. O que é que a nudez acrescenta à experiência da praia que um fato de banho (tantas vezes diminuto) possa impedir, excepto talvez o prazer sensual a ela associado e que tão facilmente pode ser gorado com a exposição de corpos nus menos (e muitas vezes muito menos) do que canonicamente belos, perguntariam os mais cépticos? Ao que eu responderia: sim, parte do gozo de estar nu numa praia advém do sentido do erótico a que o corpo está irremediável e felizmente ligado e também da quebra de proibições, decoros e tabus. Mas não só. Também é boa a experiência da vulnerabilidade, da exposição, de uma certa erradicação de estatutos sociais, económicos e culturais que a nudez, até certo ponto, permite ou, pelo menos, simula e facilita. E há a comunhão com a natureza que em vez de nudismo nos faria dizer naturismo (quem já se meteu no mar sem roupa sabe que o fato de banho, pequeno que seja, faz toda a diferença). Tanta coisa para justificar e defender o nudismo ocasional... Tanto significado e simbolismo e expressão nos corpos — a beleza óbvia de uns e a menos do que óbvia de outros... E até a graça de perceber o absurdo da nudez nos actos banais de usufruto da praia, que séculos de cultura impuseram que se realizassem no pudor de um fato de banho.

3 comentários:

Anónimo disse...

Creio que devo acrescentar que esta foto foi tirada durantes as nossas férias, de há um par de semanas atrás. Os retratados são dois anónimos veraneantes que — como nós — descontraidamente voltaram uma e outra vez à praia mais descontraída de Portugal: a do Meco.

Venus as a boy disse...

Reparei que vivem no Porto. Já alguma vez foram à praia da Barra, em Cangas (Pontevedra)? Aí sim devemos estar perante a praia mais descontraída da costa Atlântica! De vez em quando dá-me uma vontade incontrolável de ir até lá. Saio sempre revigorado. Ora vejam neste link que bonita ela é!

Anónimo disse...

Pela parte que me diz respeito (o Gonçalo está ausente e só pela manhã ele estará defronte do seu computador) gostaria de adiantar-me e expressar (em nome dos dois, seguramente) as boas-vindas ao Gayfield.
Por diversas vezes fizemos praia na Galiza, e em sítos muito diversos que por vezes já nem lembramos. Mas que Cangas não tenha sido um deles é muito provável. As férias laborais de Verão já terminaram. Teremos ainda um segundo período, mas só mais lá para o final do ano, o que não será a melhor altura para idas à praia. Mas talvez a gente corresponda ao convite de reencontro com um casal amigo da Corunha para, no ano que vem, pensarmos num desvio com paragem e estadia em Cangas.
Por cá e agora, numa onda bem diferente, uma proposta: estamos a programar uma ida aos Jardins do Palácio de Cristal, na noite de sábado 26 de Agosto, para (re)ver os Pop Dell'Arte ao vivo nas Noites Ritual (há mais actuações e os ingressos são extremamente baratos). Para quem parece ser fã do Bowie, do Cocteau, de Pierre et Gilles e outros assim (andei a bisbilhotar n'O Ano da Orquídea), não me parece despropositado este desafio-convite para nos conhecermos, já que estamos perto e parece haver bastantes interesses em comum, aos quais os Pop Dell'Arte correspondem também. Será o desafio ousado demais ou de outra forma pouco viável?...
Abraço,